Escritora e filósofa destacou a importância de reconhecer as desigualdades históricas, ampliar a representatividade no ensino e preparar educadores para uma prática comprometida com a diversidade
“Para falarmos sobre diversidade a gente precisa debater sobre desigualdade. Para falar sobre futuro a gente tem que falar sobre passado, sobretudo em um país como o nosso, o Brasil, que durante muito tempo romantizou a escravidão e as relações raciais. Compreender o passado significa investigar como as desigualdades foram construídas no nosso país.” Foi com essa reflexão que a filósofa e escritora, Djamila Ribeiro, iniciou sua palestra no último dia (8) do 22º Congresso Internacional de Inovação na Educação. A palestra da escritora marcou o encerramento do evento promovido pelo Sistema Fecomércio/Sesc/Senac-PE.
Durante a palestra, Djamila destacou como a estrutura social brasileira foi marcada, ao longo de séculos, por mecanismos de exclusão que restringiram o acesso de diferentes grupos à educação e à participação na sociedade. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, e, segundo a filósofa, o poder colonial não apenas impediu o acesso de indígenas, africanos e afrodescendentes a direitos fundamentais, como também perseguiu suas formas de resistência, expressas em revoltas, quilombos e na preservação de línguas, danças e saberes ancestrais.
A escritora também chamou atenção para o mito da democracia racial, ideia que difundiu a percepção de que os conflitos e as desigualdades raciais teriam sido superados no país. Essa narrativa contribuiu para invisibilizar o racismo e retardar o reconhecimento da necessidade de políticas públicas voltadas à promoção da equidade, como as ações afirmativas. Nesse contexto, Djamila ressaltou a importância das cotas raciais como instrumento de ampliação de oportunidades e de acesso à educação. “A falta de oportunidades faz com que a gente perca no nosso país muitos talentos que poderiam estar contribuindo, inclusive para a inovação e educação no nosso país”, alertou.
O papel dos educadores na construção da equidade
Ao relacionar o debate racial ao cotidiano das instituições de ensino, Djamila também abordou o conceito de lugar de fala e a responsabilidade dos educadores na construção de ambientes de aprendizagem que reconheçam diferentes experiências e perspectivas. A reflexão reforçou a importância de que os próprios profissionais da educação estejam dispostos a aprender, rever concepções e questionar discursos equivocados, evitando reproduzir estereótipos e visões que reforçam desigualdades.
“A gente precisa de uma educação que seja representativa do que o Brasil já é. Falar de diversidade, de equidade não é nada de outro mundo. O Brasil já é diverso. Somos formados por mais de 300 grupos étnicos indígenas, temos população negra, branca, descendente de japonês, italiano, alemão e sírio. O que estamos pleiteando e reivindicando é que a educação seja representativa do que a gente já é. E se os espaços não estão refletindo essa diversidade é porque a gente tem um problema e o nosso trabalho como quem pensa educação é transformar as instituições”, afirmou
Reconhecido por promover reflexões sobre as transformações da educação e conectar especialistas e profissionais do setor, o Congresso Internacional de Inovação na Educação encerrou a 22º edição com mais de 250 atividades, 2.549 participantes, abrangendo 22 estados brasileiros e 254 municípios. “O mote deste ano, educação em movimento é o que o Senac, a Fecomércio e o Sesc fazem todos os dias”, afirmou Regivan Dantas, diretor regional do Senac PE.



